Há poucos dias, andava sem rumo por ruas incoerentes e desinteressadas. Andei. Não sei quanto, mas sei que foi mais do que você está imaginando.

Em alguns momentos – por molecagem ou pra espantar o sono e o tédio – corria.

Corria até meus pulmões doerem com o pouco ar que até eles chegavam. Até minhas narinas arderem com o ar seco que fortemente as atravessavam em idas e vindas desesperadas – frenéticas não é um bom termo para se usar quando narramos uma história verídica, principalmente quando somos narradores e personagens ao mesmo tempo.

Pra me acalmar da correria, às vezes, deitava-me em pontos de ônibus ou em bancos de praças. Não sei por que, mas só às vezes fazia isso. Outras vezes subia em árvores ou em muros, e de lá ficava a contemplar os transeuntes apressados que sob meus pés, dançavam ao ritmo do tango de suas vidas pessoais.

Depois de horas andando e correndo, comecei a me sentir alheio ao meu corpo, aos meus sentidos. Não sentia meus sentidos.  Olfato e tato se misturavam com o paladar, audição e visão. Todos eram um só e nenhum, dentro da contradição do meu ser. Eu já não me sentia como o mesmo eu de antes. E foi neste minuto de transição que vi que seria capaz de vender um olhar. Vendo um olhar – pensei. E assim, fiquei vendo olhares que a você pudesse interessar.