Eu leio, tu lês, ele lê…

Eu leio seus tiques nervosos, enquanto você lê minhas roupas e esse cara que tá sentado do seu lado leria o meu dinheiro. Porque gasta tão pouco?

Uns se fixam nas entrelinhas do texto verbal falado, outros aos trejeitos, às caretas, aos exageiros gestuais: deve ser descendente de italiano, fala com as mãos…

Outros lêem como me alimento, o que ouço e como escrevo. Eu leio o seu falso descaso,  as suas mentiras infundamentadas, seu perfume exagerado. Ela lê a sua cara de pau, seus comentários calculadamente inocentes, calculadamente indecentes.

Aqueles ali, lêem apenas o seu suposto conteúdo intelectual, mas não sabem dar valor nem ao não verbal, quem dirá ao não dito?

E a mocinha ali, aquela mais perto da porta, não passa de uma falsa, que me acha inteligente porque acha que você também o acha, e discordaria se você também discordasse. Ela se julga da vanguarda da leitura, mas nem sabe ao certo o que seria isso.

Esse texto vai parar por aqui, porque em poucos minutos você terá que ler o humor do seu chefe, e do chatinho emburrado da mesa ao lado, pra saber o que falar, o que fazer, sem nem pensar que eles ainda não pararam de te ler. E não vão.