Todo dia, ainda com o gosto do café na boca, Maria arrumava indignada a cama da patroa. Essa zinha não serve nem pra arrumar a própria cama, não sei como conseguiu um homem tão bom quanto o seu Antônio… resmungava entredentes. Dizia essas e mais inúmeras outras coisas. Desde como teria educado a patroa, caso essa tivesse vindo ao mundo como sua filha, até macumbas diversas.

Numa terça-feira véspera de feriado, foi surpreendida pela patroa, que perguntou o que ela dizia e com quem falava enquanto arrumava a cama. Com muita pressa e para desconversar, imaginando que sua chefe não teria o mínimo de interesse, Maria logo disse que cantava uma das músicas típicas de seu povo – o que não deixava de ser verdade: macumba era algo mais típico do seu povo do que se imaginava.

Como era de se esperar a patroa emitiu um “hã” de desinteresse e saiu do quarto logo em seguida.

Neste mesmo dia, quando já havia descido para arrumar os quartos das crianças, Maria ouviu um barulho muito forte vindo do quarto do seu Antônio. Correu para ver o que tinha acontecido no andar de cima – mais por curiosidade que pra ajudar a patroa. Assim que chegou à porta, viu a enorme barata marrom em cima dos limpíssimos lençóis brancos que tinha acabado de colocar. Gritou, gritou e gritou. Uma mistura de felicidade, susto, auto realização e medo. Não é que a macumba funcionou? Pensava enquanto gritava.

Antes de se controlar e acomodar as idéias que passavam por sua cabeça, Maria ouviu um barulho vindo do Closet. Assustada, olhou para o lado e logo viu que sua patroa estava ali, e não na cama, com um sapateira caída sobre seu corpo. Entre um choro indecifrável e um pouco de vergonha, Maria foi ajudar a patroa.

Maria, sem saber se explicar, acabou perdendo o emprego e a fé na macumba.