Ontem vi um sorriso escorrer por meus lábios como papinha em boca de criança.

Meio enojado, meio chateado, meio sem graça, engoli o riso como se fosse uma atriz de novela mexicana engolindo o choro.

Tudo aconteceu bem rápido, talvez nem o olhar mais atento teria percebido.

Felizmente não me engasguei com meu riso falso e não gastei meus dentes amarelados de nicotina com um mais um sorriso inútil.

Felizmente estava só, curtindo minhas dores mais cortantes, desenhando flores mortas e aviões sem asas.

Foi quando vi meu cachorro comendo mais um ex-gato do visinho.

Foi inevitável, eu tinha que rir. Dos sete que ele tinha esse já era o terceiro.

Engoli o riso, numa mistura de engasgo e epifania, quando percebi que a desgraça do gato era ínfima perto da minha.